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quarta-feira, 4 de abril de 2012

BB deu partida a ofensiva para a redução dos spreads

Da Reuters
Por Aluísio Alves
SÃO PAULO, 4 Abr (Reuters) - O Banco do Brasil deu partida nesta quarta-feira à esperada ofensiva do governo para tentar reduzir os spreads bancários, reduzindo fortemente os juros de diversas linhas para empresas médias e para pessoas físicas. A notícia derrubava ações de instituições financeiras na bolsa paulista.
O programa do BB, batizado de "BOMPRATODOS", inclui a oferta adicional de 43,1 bilhões de reais, sendo 26,8 bilhões de reais para micro e pequenas empresas e 16,3 bilhões de reais para pessoas físicas.
Às 16h30, a ação do BB recuava 4,32 por cento, a 24,61 reais, perto da mínima até esse horário e apresentando a maior queda do Ibovespa, que caía ao redor de 1 por cento. A do Itaú Unibanco perdia 2,62 por cento, enquanto a do Bradesco tinha baixa de 2,21 por cento.
"Pelo ângulo do investidor, a notícia é ruim, porque isso sugere um aumento da concorrência e a queda das margens dos bancos", disse o economista João Augusto Frota Salles, da consultoria Lopes Filho.
No caso do varejo, a linha de financiamento para compra de veículos do BB, com crédito pré-aprovado e sem tarifas embutidas, terá queda de pelo menos 19 por cento, informou o banco. Para as linhas voltadas à aquisição de bens e serviços de consumo, os juros médios serão reduzidos em 45 por cento.
Para beneficiários do INSS, as taxas do crédito consignado serão de 0,85 por cento a 1,8 por cento ao mês. Aos clientes que recebem salário no BB será oferecida linha de rotativo do cartão de crédito com taxa mensal de 3 por cento. Atualmente, a taxa média é de 12,25 por cento ao mês.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Petrobrás?

Açúcar ou Etanol?
Açúcar.
Menos OFERTA de Etanol. Aumento de preço.
Etanol ou Gasolina?
Gasolina.
Aumento de DEMANDA. Petrobrás importa barris pra suprir esse aumento.
Cotação la fora maior que o preço praticado internamente pela Petrobrás.
Governo não deixa aumentar a Gasolina NA REFINARIA.
A Petrobrás fica ainda mais vulnerável ao câmbio e as instabilidades no mundo Árabe (que afeta diretamente a cotação do petroleo).
Absorve esses custos e prejuizos.
O que afeta seus resultados.
Os especuladores abandonam o barco (ações) e…………
FONTE: PIMON

domingo, 15 de janeiro de 2012

Não seria melhor voltar a escravatura?

Por Fernando Brito
A Folha publica hoje matéria sobre o acréscimo de renda provocado pelo aumento do salário mínimo, mostrando que a classe C – mais do que as D e E – é a grande beneficiária dos R$ 63,98 bilhões que serão injetados na economia, ficando com R$ 48 bilhões, contra R$ 12,5 bi apropriados pelas classes D/E.
Corretamente, o diretor do Datapopular explica que o vínculo formal de remuneração da classe C faz este impacto ser mais diretamente absorvido na renda, embora não se mencione que esta diferença, na verdade, é apenas metade do que parece ser, pois a classe C tem hoje quase o dobro do número de integrantes do grupo D/E.
Mas a Folha, claro, não pode deixar de ouvir “o outro lado”. Ou seja, aqueles que sempre arranjam uma “boa razão” para que não se eleve o valor do trabalho do nosso povão. E o escalado é o economista José Márcio Camargo, integrante do núcleo do grupo que migrou de um vago esquerdismo para formar o “bunker” do pensamento neoliberal da PUC do Rio de Janeiro.
Não é preciso comentar, basta transcrever:
“O economista José Márcio Camargo, da Opus Investimentos, é crítico desse incremento econômico (o do aumento do salário-mínino).
“Esse dinheiro tem que sair de algum lugar. As empresas vão ter que deixar de comprar, de investir, para arcar com esses custos adicionais.”
O resultado, diz, é que a renda total -e o consumo-não deverá aumentar tanto quanto se prevê com o aumento do salário.
“Com um lucro menor, as empresas poderão gerar menos empregos”, afirma.
Estamos, atenção, no século 21 e ainda há quem deite doutrina para afirmar que salário-mínimo – e ainda um dos menores do mundo – é empecilho para o emprego e o progresso econômico.
Quem sabe se com a escravatura iríamos ter mais progresso que tivemos com a sólida – embora ainda modesta – elevação dos salários? Afinal, pobre está ficando muito caro, não é?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

2012 Por Amir Khair

“Os países ditos desenvolvidos não têm condições de consumir o que vinham consumindo. Eles terão que ‘apertar os cintos’, não há alternativa. A única maneira que vejo como possível recuperação - muito lenta - desses países será pela via da exportação, ou seja, eles terão que ter uma sensível redução nos custos salariais, além de desvalorizar ainda mais as suas moedas para ganhar poder competitivo internacional. Não espero que esses países tenham um desenvolvimento no mercado interno, porque passarão por um emagrecimento de vários anos”. A análise é do economista Amir Khair, em entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line. Na sua visão, “para a economia mundial, 2012 será um ano nada bom. Vejo como um ano de redução global nas exportações, e de uma situação bastante conflituosa do ponto de vista social, especialmente nos países desenvolvidos, que terão problemas bastante graves do ponto de vista de tentativa de arrocho encima das populações, como já vem fazendo a Europa, com resultados bastante negativos”.
Amir Khair é mestre em Finanças Públicas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV-SP. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). É consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A banalidade do mal


Por Paulo Moreira Leite
da Época

A atitude dos governos europeus diante do sofrimento que a politica de austeridade começa a produzir produzir nos países mais frágeis da União Européia lembra um dos períodos negros da consciência política no Velho Mundo.

Na Grécia, crianças famintas desmaiam nas salas de aula porque passaram vários dias sem comer. Algumas universidades daquele país estão sem aulas há meses. Não há dinheiro para pagar professores, nem para o material didático, nem para o básico.
arcelona, a prefeitura decide racionalizar o uso de papel higiênico nas escolas para conter custos. Na Espanha inteira, o desemprego entre jovens passou dos 40%.
Alguém se escandaliza? Deixando quem vai protestar na rua, manifestando sua raiva e sua impotência, a atitude geral é de silencio e conformismo. A fome das crianças gregas é tão previsível como abrir o chuveiro e aguardar pela queda d’água. O pais foi asfixiado por sucessivos planos de ajuste econômico que trouxeram mais sacrifícios e sofrimentos.
Estamos assistindo a uma nova versão da velha banalidade mal, conceito essencial para entender  o caráter impessoal e burocratizado de boa parte das políticas de Estado em nossa época.
Altos funcionários e executivos despidos de todo sentimento ético e toda solidariedade em relação a outros seres humanos são capazes de cometer atos cruéis e vergonhosos, sem sentirem-se obrigados a refletir sobre as consequências.
Hanna Arendt criou este conceito numa situação extrema — para definir a postura de Adolf Eichmann durante o período nazista. Responsável pela administração da máquina que executou 6 milhões de judeus, o carrasco Eichmann garantiu em seu julgamento que não possuía um ódio especial pelas pessoas que enviou aos campos da morte.
Não era um ”monstro”. Era um funcionário. Considerava que, cumprindo seu dever naquele posto que lhe fora designado, estava contribuindo para o bem do país e para sua carreira. Eichmann negava que tivesse uma motivação perversa. Por isso, disse em seu julgamento, devia ser considerado inocente das acusações que lhe eram feitas. Nem era anti-semita, declarou. Essa argumentação traduziu a “banalidade do mal”.
E ajuda a pensar sobre a postura que homens e mulheres em posições de responsabilidade podem assumir em suas épocas, quando deixam de levar em consideração a condição humana.
Além de eliminar judeus em campos de concentração, o nazismo escravizou boa parte da população da Europa Central para trabalhar como mão-de-obra gratuita na industria de guerra. Num país ocupado por tropas alemãs, 200 000 gregos morreram de fome.
Não há portanto comparação possível entre a ditadura nazista e os governos democráticos de hoje. Vivemos em outro mundo. Os governantes são eleitos e a liberdade atinge um patamar inédito na história do Ocidente.
Mas a banalidade do mal reaparece, ainda que seja em outro contexto. E, mais uma vez, ela expressa o esforço de quem pratica atos socialmente cruéis mas se esforça para eximir-se de toda responsabilidade. E, não por acaso, sua existência ganha músculos em regimes onde a democracia é ultrapassada — o que acontece quando a população não é autorizada a dar sua opinião sobre questões fundamentais de sua existencia, como a política econômica.
Deixando de lado o blá-blá-blá da perseverança que se tornou o discurso oficial dos governantes europeus, a politica de austeridade ameaça jogar o Continente numa situação de desespero profundo, onde a fome das crianças gregas é só o exemplo mais visível de uma tragédia bem maior.
Calouros de política econômica sabem muito bem o que acontece quando um governo força o corte de gastos públicos, não estimula o consumo nem a criação de empregos. É o caminho mais rápido para transformar a região mais rica do planeta, com PIB de 16 trilhões de dólares, no cemitério do mais equilibrado sistema de bem-estar social.
Analista econômico com todas as credenciais de quem é advogado da economia de mercado, Martin Wolf, principal editor do Financial Times, define a política da União Européia como “recessão estrutural”. Com isso, ele quer dizer que o Velho Mundo está sendo levado para um programa de depressão economica de longo prazo, que irá reduzir salários, cortar programas sociais e regressão em toda linha, sem apontar nada no fim do túnel.
Pergunte-se aos governantes e tecnocrataas da Europa qual sua responsabilidade pelo que está ocorrendo com as crianças gregas, com os jovens espanhóis, com os italianos à beira da falencia.  Nenhuma. Não tem culpa de nada. A maioria não tem religião, o que costuma livrar muitas pessoas de sentirem incômodos de consciencia. Ninguém se sente responsável. Não são monstros. São pessoas normais.

sábado, 24 de setembro de 2011

Quando os banqueiros ouvem Karl Marx






Por Antonio Martins


Na aparência, tudo não passa de um completo nonsense. Aos 61 anos, o economista britânico George Magnus é uma das vozes ouvidas no escalão mais alto do sistema financeiro internacional. Desde 1997, aconselha (primeiro, como economista-chefe; hoje, como consultor senior) o UBS, o maior banco suíço e o segundo maior do mundo na administração de fortunas milionárias (com ativos de cerca de 2,5 trilhões de dólares). Este homem está dizendo a seus insignes clientes que ouçam, para salvar a economia da crise… Karl Marx.



Magnus não se refere, é claro, ao Marx político, que propunha a derrocada da burguesia por meio da revolução proletária. O que ele realça é a precisão teórica das análises marxianas sobre a natureza das crises do capitalismo. Demonstrando conhecer a obra do filósofo alemão, sustenta: por trás das turbulências que continuam sacudindo os mercados financeiros, há uma clássica crise de superprodução. A concentração de riquezas foi tão aguda, nas mais de duas décadas de hegemonia neoliberal, que se reproduziu o velho mecanismo descrito por Marx: já não há consumidores capazes de adquirir as mercadorias e serviços socialmente produzidos.

Mais que o diagnóstico, porém, importam as propostas do consultor senior do UBS sobre os caminhos para sair da crise. Sempre apoiando-se nas análises marxistas, Magnus sustenta: num cenário como o atual, o caminho adotado pelas elites econômicas, em praticamente todo o mundo, levará ao abismo. Não se trata de cortar gastos, nem de praticar a “austeridade fiscal”. Os Estados precisam intervir na economia — inclusive adotando medidas normalmente condenadas pela ortodoxia. Ampliar o poder de compra dos trabalhadores. Desencadear obras capazes de reduzir o desemprego. Reduzir a dívida de setores da população (como os que hipotecaram suas casas) e de países (como a Grécia) que se enrascaram nas armadilhas de crédito abertas até 2008. Aceitar taxas mais altas de inflação.

É um sopro provocador de reflexão, num momento em que os economistas de mercado e a mídia tentam tirar do baú a mesma ortodoxia que provocou a crise (observe sua pregação contra a queda das taxas de juros, ou o bombardeio contra a volta de um imposto sobre transações financeiras, para financiar a Saúde). Assim como o recente artigo, de Warren Buffet — o multibilionário norte-americano que pede impostos sobre as grandes fortunas — o texto de Magnus lembra que, em tempos de crise, o maior risco está em seguir mecanicamente o pensamento convencional.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Para onde caminha o setor financeiro


Por Luis Nassif
Ontem participei da palestra da Semana Secovi (Sindicato das Empresas de Construção Civil de São Paulo).  Junto com o presidente do banco Itaú, Roberto Setubal, o desafio foi prever para onde caminhará o setor financeiro nos próximos anos.
Historicamente, a mobilização do grande capital sempre foi fundamental para saltos ou tentativas de saltos na economia brasileira. O primeiro banqueiro a entender esse dinâmica foi o Barão de Mauá, no século 19. O país que aparentemente não dispunha de capitais, na verdade possuía uma enorme poupança ou empoçada nas casas das pessoas ou desviadas para a praça londrina – de onde retornavam de tempos em tempos na forma de capital externo.
p>Mobilizando essa poupança, o Barão logrou iniciar o processo de industrialização brasileiro.
No alvorecer da República a ambição pessoal desmedida de Rui Barbosa – primeiro Ministro da Fazenda de Deodoro – jogou fora a oportunidade de acelerar a industrialização brasileira através do mercado de capitais e do sistema bancário.
Mais tarde, nos anos 30, esse grande capital foi fundamental para acelerar a industrialização np período Vargas. Mas só após uma crise cambial que obrigou o governo brasileiro a restringir a livre movimentação de capitais. Sem espaço para ganhos especulativos fáceis, o capital caiu na economia real, indo capitalizar bancos comerciais e ajudando no processo de substituição de importações.
No pós-guerra, a capacidade de organizar a poupança interna sempre foi vista como fator essencial de progresso – das incursões de Nelson Rockefeller aos estudos de Albert Hirschman (que serviram de inspiração para o pensador brasileiro Ignácio Rangel).
Esse grande capital se formou, na maioria das vezes, através de jogadas no mercado de dívida pública e de dívida externa brasileiros. Informações privilegiadas, conhecimento das praças internacionais permitiram a financistas mais espertos acumular capital que, depois, ajudou na reciclagem da economia brasileira.
***
No pós-guerra, a ideia de desenvolvimento era entendida como de um movimento de equilíbrio, no qual todos os fatores nacionais deveriam se desenvolver simultaneamente. Incumbido pela ONU de estudar o modelo colombiano, Hirschman constatou que o país tinha grandes vulnerabilidades tornando impossível esse desenvolvimento equilibrado.
Sua recomendação foi a de eleger alguns setores com maior dinamismo, montar uma política econômica desequilibrada mesmo, que favorecesse a acumulação de capital e esses setores, depois, puxariam os demais com ele.
Essa tese foi inteiramente endossada por Rangel, que defendia a ideia de que faltava ao Brasil, para desenvolver-se, permitir ao setor financeiro ganhar musculatura, sem as restrições de políticas ortodoxas para enfrentar a inflação.
O fracasso do Plano Real, no campo do desenvolvimento, decorreu da importação pura e simples dos princípios de Hirschman por Fernando Henrique Cardoso. Julgava ele que o desenvolvimento viria meramente cobrindo de favores os novos bancos de investimento – através de política de câmbio e juros e privatização – e depois deixar o desenvolvimento por sua conta.

A miopia de FHC - 1

Com seu conhecimento exclusivamente teórico de desenvolvimento, sem capacidade de analisar o mundo real, FHC não se deu conta de que o Brasil de 1994 não era a Colômbia dos anos 50. Possuía uma estrutura industrial potente, um legado de inovação e tecnologia, experiências com PMEs (pequenas e micro empresas), know how em políticas sociais e, principalmente, um mercado de consumo potencial extraordinário.

A miopia de FHC - 2

FHC cobriu o setor de favores, criou uma dívida pública monumental (a contrapartida dela foram os ativos que caíram no bolso dos rentistas), mas não gerou as condições na economia para que esse recursos viessem irrigar o desenvolvimento. Eles ficaram rodando em mercados especulativos ou na renda fixa, sem irrigar a reestruturação produtiva da economia brasileira. Acomodou-se no lucro fácil.

Os novos tempos

Quase vinte anos depois, tem-se um mercado de capitais maduro, novas formas de investimento e crédito, um sistema bancário sólido, embora ainda cobrando taxas exorbitantes e um mercado de consumo de massa. Tem-se ainda grandes gargalos ajudando na aplicação desses recursos, já que gargalos são demandas não atendidas. Tem-se todos os elementos para, finalmente, trazer o grande capital para o esforço de desenvolvimento.

Roubini: Grécia precisar abandonar o euro e Portugal também


Do Opera Mundi
O economista Nouriel Roubini defendeu em artigo publicado nesta segunda-feira (19/09) no Financial Times que Grécia e Portugal abandonem o euro. Ele criticou o plano de austeridade imposto pela União Europeia e pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e sugeriu uma reestruturação da dívida grega.
"A Grécia está presa num ciclo vicioso de insolvência, fraca competitividade e uma depressão cada vez mais profunda", escreveu o economista, alertando que a dívida pública grega está a perto de atingir os 200% do PIB (Produto Interno Bruto).
Roubini, que ficou conhecido por antecipar a crise financeira de 2008 dos EUA, disse que para evitar o colapso, "a Grécia tem de avançar já para um ‘default' ordenado, sair voluntariamente do euro e regressar ao dracma [antiga moeda grega]". Isto porque uma forte depreciação da moeda nacional "restauraria rapidamente a competitividade e o crescimento" do país, tal como aconteceu na Argentina, recomenda Roubini.
O economista reconheceu, contudo, que o processo de saída da Grécia da zona euro seria "doloroso", provocando, por exemplo, grandes perdas aos bancos da zona euro, que seriam superadas caso as instituições sejam realmente "agressivamente recapitalizadas".
O professor da Universidade de Nova York disse ainda que o recente acordo de troca de títulos de dívida que a Europa ofereceu à Grécia é um "roubo", fornecendo muito menos alívio à dívida da Grécia do que o país precisava", aconselhando Atenas a rejeitar o acordo e a renegociar outro que seja melhor.
Em todo o caso, frisa Roubini, mesmo que fosse dado um alívio significativo à dívida grega, o país não seria capaz de voltar ao crescimento, a menos que a competitividade seja rapidamente restaurada. "Sem um regresso ao crescimento, as dívidas vão permanecer insustentáveis", alerta.
No artigo, Roubini afirmou que "outros países periféricos têm problemas de sustentabilidade de dívida e de competitividade do estilo grego", defendendo que "Portugal, por exemplo, pode eventualmente ter que reestruturar a sua dívida e sair do euro".
Quanto à Itália e Espanha, Roubini afirmou que são duas economias "potencialmente solventes", mas que irão necessitar de financiamento da Europa, independente da Grécia sair ou não do euro."Que não haja enganos: uma saída ordeira do euro vai ser difícil, mas assistir à lenta implosão desordeira da economia e da sociedade grega vai ser muito pior", concluiu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A cura pelo sangramento



Por Paul Krugman


Os médicos chegaram a acreditar que pela retirada do sangue dos pacientes poderiam purgar os “humores” diabólicos que, pensavam eles, eram causadores das doenças. Na realidade, é claro, tudo o que o sangramento fazia era tornar o paciente mais fraco e com maior chance de sucumbir.
Felizmente, os médicos já não acreditam que sangrar os doentes vai torná-los saudáveis. Infelizmente, muitos dos que fazem a política econômica ainda acreditam. E o sangramento econômico não está apenas inflingindo vastas dores; está começando a solapar nossas perspectivas econômicas de longo prazo.
Algumas informações: no último ano e meio, o discurso político, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, tem sido dominado por pedidos de austeridade fiscal. Ao cortar os gastos e reduzir os déficits, nos disseram, as nações poderiam restaurar a confiança e promover o renascimento econômico.
E a austeridade tem sido real. Na Europa, nações com problemas como a Grécia e a Irlanda, impuseram cortes selvagens, enquanto nações mais fortes impuseram programas mais suaves de austeridade. Nos Estados Unidos, o modesto estímulo federal de 2009 se extinguiu, enquanto governos estaduais e locais cortaram seus orçamentos, de forma que no conjunto tivemos de fato um movimento em direção à austeridade não muito diferente do da Europa.
O estranho, no entanto, é que a confiança na economia não aumentou. De tal forma que empresas e consumidores parecem muito mais preocupados com a falta de clientes e de empregos, respectivamente, do que se sentem seguros com o rigor fiscal de seus governos. E o crescimento parece que se afoga, enquanto o desemprego permanece desastrosamente alto dos dois lados do Atlântico.
Mas, dizem os apologistas dos resultados ruins obtidos até agora, não deveríamos focar no longo prazo em vez do curto prazo? Na verdade, não: a economia precisa de ajuda real agora, não de recompensas hipotéticas dentro de uma década. De qualquer forma, dados começam a emergir sugerindo que os problemas de “curto prazo”  da economia — agora em seu quarto ano e tornados piores pelo foco em austeridade — estão custando também às perspectivas de longo prazo.
Considerem, em particular, o que está acontecendo com a base manufatureira dos Estados Unidos. Em tempos normais, a capacidade industrial cresce de 2 a 3 por cento todo ano. Mas, diante de uma economia persistentemente fraca, a indústria tem reduzido, não aumentado, sua capacidade de produção. Agora, de acordo com estimativas do Banco Central [dos Estados Unidos], a capacidade está quase 5 por cento menor do que era em dezembro de 2007.
O que isso significa é que, quando a economia real finalmente se recuperar, vai enfrentar falta de capacidade e gargalos de produção muito mais cedo do que deveria. Ou seja, a economia fraca, que é parcialmente resultante dos cortes no orçamento, está causando danos futuros, além dos presentes.
Além disso, o declínio na capacidade de produção é apenas a primeira das más notícias. Cortes similares vão provavelmente acontecer no setor de serviços — na verdade, já podem estar em andamento. E com o desemprego de longo prazo em seu ponto mais alto desde a Grande Depressão, existe o risco real de que os desempregados vão ser considerados como não-empregáveis.
Ah, e o forte dos cortes em gastos públicos está sendo feito na educação. De alguma forma, demitir centenas de milhares de professores não parece ser uma boa forma de garantir o futuro.
Na verdade, quando você combina os crescentes indícios de que a austeridade fiscal está reduzindo nossas perspectivas de futuro, com as taxas de juro bem baixas nos papéis da dívida dos Estados Unidos, é difícil evitar uma conclusão surpreendente: a austeridade pode ser contraproducente mesmo do ponto-de-vista puramente fiscal, já que crescimento menor no futuro significa menor arrecadação.
O que deveria estar acontecendo? A resposta é que precisamos de um grande empurrão para fazer a economia se mover, não em uma data futura, mas agora. No presente, precisamos de mais, não de menos gastos governamentais, apoiados por políticas agressivamente expansivas do Banco Central e de suas contrapartes fora dos Estados Unidos. E não são apenas economistas teimosos que estão dizendo isso; empresários como Eric Schmidt, do Google, estão dizendo a mesma coisa, e o mercado de ações, ao comprar dívida dos Estados Unidos a juros tão baixos, está para todos os efeitos pedindo uma política mais expansiva [do Banco Central].
Para ser justo, alguns formuladores da política parecem entender isso. O novo plano de emprego do presidente Obama é um passo no caminho certo, enquanto alguns membros do Banco Central americano e do Banco da Inglaterra — mas, infelizmente, não do Banco Central Europeu — têm sugerido políticas muito mais orientadas para o crescimento.
No entanto, realmente precisamos é convencer um número substancial de pessoas com poder político e influência de que elas gastaram o último ano e meio seguindo na direção errada, e que elas precisam fazer um giro de 180 graus.
Não vai ser fácil. Mas, até que se faça o giro, o sangramento — que está tornando nossa economia mais fraca agora, colocando o futuro, ao mesmo tempo, em risco — vai continuar.

Desindustrialização antes do controle de tecnologias estratégicas


Do Congresso Nacional de Economia
Por ocasião da comemoração dos 60 anos de regulamentação da profissão, os Conselhos de Economia, como instância de representação múltipla da Categoria, visando esclarecer e promover uma reflexão sobre o assunto central do Congresso, vêm manifestar-se à opinião pública a respeito do debate recente sobre desindustrialização no Brasil.
Os critérios e as circunstâncias com base nos quais se caracteriza o que é em geral entendido como desindustrialização são diversos. O processo não é novo na História Econômica, mas, de modo geral, pode ocorrer em países que já alcançaram um alto grau de desenvolvimento. Sua caracterização vai desde a redução do nível e da capacidade de produção em termos absolutos até à perda de participação relativa da atividade industrial na geração de renda.
Desindustrialização também pode ser entendida como redução da abrangência e da complementaridade dos setores industriais entre si e com o restante da economia. Assim, a inexistência ou fragmentação das cadeias produtivas pode ser vista como uma limitação ao ciclo da industrialização e como uma restrição à alavancagem do desenvolvimento consistente.
Numa perspectiva de longo prazo, o Brasil não pode continuar com o atual processo de aumento da dependência da importação de produtos industrializados. A atual substituição da produção interna por produtos importados ocorre antes que o país tenha alcançado o domínio dos processos tecnológicos estratégicos para assegurar a sustentabilidade de seu desenvolvimento soberano.
A questão se reveste de mais riscos ainda quando à situação antes descrita se associa uma recomposição das pautas de exportação, dependentes, crescentemente, da demanda internacional por produtos primários e de modesto valor agregado. Como é sabido, estes produtos são mais facilmente substituíveis, têm baixo conteúdo tecnológico e  as cotações são muito mais voláteis. Esta crescente especialização do padrão de exportação é a chamada reprimarização.
Este é, presentemente, um dos grandes desafios da economia brasileira, ainda mais nas circunstâncias em que o binômio câmbio sobrevalorizado e juros elevadíssimos está fortemente associado, e pesadas resistências e interesses internos se opõem à desativação dessa armadilha, cujos efeitos a médio prazo podem ser devastadores para o projeto nacional de desenvolvimento autônomo, continuado e vigoroso, capaz de tornar o Brasil emergente, enfim, no País do presente.
No entanto, o problema da desindustrialização não se restringe à natureza das políticas macroeconômicas. A questão central é a escolha de estratégias de desenvolvimento que impliquem mudanças estruturais efetivas, inclusive quanto ao deslocamento da fronteira de produção. A simples correção do câmbio real e do juro real não impede, necessariamente, o redirecionamento dos investimentos na direção da “linha de menor resistência” que, no caso brasileiro, é na direção da produção de bens intensivos em recursos naturais.
A correção da gestão macroeconômica deve vir acompanhada de políticas estruturantes de novo padrão de acumulação e alocação de recursos. Os objetivos são impedir o viés na direção da especialização em produtos intensivos em recursos naturais e promover o deslocamento mais equilibrado e abrangente da fronteira de produção. Somente estruturas de produção mais abrangentes, robustas e competitivas permitem a melhora permanente de renda, consumo e distribuição, ou seja, o desenvolvimento econômico no longo prazo.
Nesta perspectiva, cabe considerar que os desafios das medidas macroeconômicas não sejam restritivos à sustentabilidade do desenvolvimento econômico.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Liberdade é pensar por si mesmo

Por Fernando Brito


Toda hora a gente ouve os economistas e os comentaristas falarem dos “fundamentos da economia”. E da velha regra de que quando a demanda cai, a produção cai e os preços, idem.
Lógico, isso reduziria a inflação, não é?
A obviedade, porém, não resiste à prova dos fatos.
Quem tem mais de 40 anos e viu, já adulto, a espiral inflacionária, sabe que o poder de compra do povo brasileiro caía, caía e os preços, ao contrário, subiam, subiam.
Mesmo depois do Plano Real, o combate à inflação sempre foi o argumento usado para proteger a mais vergonhosa espoliação do nosso país.
Em nome dele, endividou-se o nosso país a níveis inacreditáveis. Desde lá, até 2001, nosso endividamento passou de 15 para 55% de toda a riqueza produzida no país. E pagamos, neste período, mais de 200% de juros reais, líquidos, descontada a inflação.
Isso não é aplicação financeira, é prática de agiotagem.
Há mais de 40 anos praticamos uma política que, quando consegue – e foram raras as vezes em que conseguiu – dar algum impulso à economia, o fez à custa da renda do trabalho e do desenvolvimento soberano do país.
Faz pouco tempo que isso mudou. E olha que nem mudou tanto.
Na segunda metade de seu primeiro mandato, iniciado com um país combalido, o Governo Lula passou a ensaiar um caminho diferente, que se consolidou e afirmou como rumo permanente no seu segundo mandato, notadamente a partir da crise de 2008.
Conservamos o regime de metas de inflação – um mandamento divino, na visão de nossos conservadores – mas colocamos ao lado deles metas – embora menos formais – de crescimento do emprego, do salário-mínimo e da economia como um todo.
O dia da independência deve nos trazer à mente uma reflexão serena, mas corajosa.
Algo só perde valor quando este valor se transfere para outro lugar, porque valores materiais não se evaporam.
A grande perda da economia brasileira não é a inflacionária, embora a inflação não deva ser tolerada tanto por seu poder corrosivo sobre a renda do trabalho quanto pela perda de referências que isso traz.
A grande perda do Brasil é exaurir suas riquezas, as da natureza e do trabalho humano, alienando-as da sociedade e retirando-as da circulação interna em que teriam um efeito multiplicador.
Agora, que o destino nos aquinhoou com uma imensa massa de petróleo, que representa uma possibilidade de recuperarmos uma parte, apenas uma parte, de tudo o que já se levou deste país, agridem e sabotam nossa maior e mais lucrativa empresa.
A política de defesa do poder de compra e das riquezas nacionais é atacada como quando, ao atirar em seu próprio peito, Vargas acusou:
“Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente”.
Os tempos, nestes quase 60 anos mudaram. A equação, não.
Os países podem emergir sem rupturas. A China recompôs os laços com o mundo que a revolução havia rompido. A Índia jamais rompeu abruptamente suas relações, embora sejam dolorosas as marcas de seu passado colonial.
Mas jamais poderão emergir pensando pela mente alheia.
Como um ser humano, um país precisa amar e respeitar a sim mesmo, encontrar sua identidade, aprender a conviver com os demais em harmonia fraterna, mas jamais injusta.
Um pequeno gesto, mínimo mesmo, em defesa de nós mesmos, como foi a redução de meio – apenas meio por cento! – por cento nos juros que pagamos, os mais altos do planeta, despertou uma fúria insana contra uma política econômica que, no essencial, tem seguido as regras da “cartilha”, produzindo superávits e apenas cortando com prudência os exageros da especulação.
Temos uma elite feroz, que infelizmente conseguiu espalhar sua ideologia aos setores da inteligência brasileira que, em troca de ser cosmopolita de segunda ou terceira categoria, deixou de nos ver como um só país, uma só nação, um só povo.
O dia da pátria nos traga, em lugar de um nacionalismo formal e vazio, a ideia de que essa mãe deve ser gentil a todos os brasileiros.
E que acreditemos que esse país, enorme e rico como é, tem não arenas o direito, mas o dever de trilhar um caminho próprio. Um caminho onde seu povo não seja mais excluído.
O seu caminho inevitável, como a nossa história está desenhando.

A visão arrogante e injusta contra o corte de juros


Por Antonio Delfim Neto
A indignada e quase raivosa reação de alguns analistas, que se supõem portadores da "verdadeira" ciência monetária, à recente decisão do Copom, de baixar 50 pontos na Selic, revela que, para eles, a sacrossanta "independência" do Banco Central só é reconhecida quando esse decide de acordo com os conselhos que eles, paciente, gratuita e patrioticamente, lhe dão todos os dias, através da mídia escrita, radiofônica e televisiva.
Qualquer desvio só pode ser atribuído e explicado pela "pecaminosa" intervenção do governo que teria jogado a toalha: abandonou a "meta de inflação" e colocou em seu lugar a "meta de crescimento do PIB", não importa a que "custo inflacionário"...
Trata-se, obviamente, de uma acusação irresponsável, injusta e arrogante. Irresponsável, porque colhida furtivamente de "fontes preservadas", que podem não passar de pura e conveniente imaginação, desmentida, aliás, pelos votos divergentes. Injusta, porque pela primeira vez, em quase duas décadas, o Banco Central mostrou que é, efetivamente, um órgão de Estado com menor influência do setor financeiro privado. Arrogante, porque supõe que nenhuma outra visão e interpretação alternativa da realidade diferente da sua possa existir.
O mundo está literalmente vindo abaixo e sugere-se que o Copom deveria repetir o dramático erro de 2008: "Esperar para ver"! Vacilamos quando podíamos ter reduzido a taxa de juro real. Tínhamos um pouco menos de musculatura do que agora, mas poderíamos ter assegurado uma redução muito menor e uma recuperação mais rápida do financiamento do "circuito econômico". Na minha opinião (que é apenas uma opinião impressionista), poderíamos ter crescido qualquer coisa como 2% ou 3% em 2009, em lugar de registrar queda do PIB de 0,6% e, ao mesmo tempo, ter reduzido dramaticamente a taxa de juros real.
As medidas fiscais e monetárias tomadas recentemente pelo governo (nas quais, aliás, tais analistas não acreditavam) estão reduzindo a taxa de crescimento a uma velocidade maior do que se esperava. Com o crescimento do PIB dessazonalizado de 0,8%, do segundo trimestre sobre o primeiro, e a enorme redução da expansão da indústria, é muito pouco provável que o PIB do ano cresça fora do intervalo de 3% (se o crescimento nos terceiro e quarto trimestres for zero) a 3,6% (na hipótese pouco provável de que cresçam também 0,8%).
Mas afinal o que se espera, ainda, das taxas de juros? Que controlem a inflação ou derrubem mais o crescimento? Todos os bancos centrais (mesmo os que não têm isso nos seus estatutos) olham para o nível de atividade e sabem que a política monetária tem efeitos com defasagens variáveis. Devem olhar não apenas a taxa de inflação futura, mas também para o ritmo de crescimento futuro. E devem ser realistas quanto às condições físicas objetivas que levam ao altíssimo custo social de tentar corrigir desajustes estruturais (como é o caso do ajuste qualitativo entre a oferta e a demanda no mercado de trabalho) reduzindo o crescimento do PIB à custa do aumento da taxa de juros real, com o que se destrói, colateralmente, o equilíbrio fiscal.
Os números externos pioram a cada dia. Na última semana de agosto: 1) no teatro de Jackson Hole, o Fed, o BCE e o Banco da Inglaterra mostraram as suas perplexidades. O mundo tomou conhecimento da receita acaciana de Bernanke: "Farei o que tenho que fazer", sem especificar do que se trata. Remeteu a incerteza para 21 e 22 de setembro, na nova reunião do Fomc; 2) as perspectivas de crescimento mundial caíram para 2,5% (com viés de baixa, contra 3,9% em 2010); 3) o crescimento dos EUA foi reduzido a 1,4% (contra 3%); 4) a Eurolândia, com a redução do crescimento da Alemanha, talvez para 2%; e 5) a China estima crescer 8,7% (contra 10,3% em 2010).
É hora do Brasil pôr as suas barbas de molho: 1) reforçar, como está fazendo, o equilíbrio fiscal de longo prazo e aprovar as medidas que estão no Congresso com o mesmo objetivo; 2) manter sob controle as despesas de custeio e melhorar a qualidade do financiamento da dívida interna; e 3) adotar medidas microeconômicas para corrigir os desequilíbrios do mercado de trabalho, o que, obviamente, não pode ser feito com manobra da taxa de juros.
Isso possibilitará ao Banco Central, diante do complicado quadro interno e externo, prosseguir, com cuidado, mas persistência, a necessária redução da nossa taxa de juros real, abrindo espaço para o investimento público.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

sábado, 3 de setembro de 2011

O Banco Central e a confraria dos "juristas"


Por Luis Nassif
A decisão do Banco Central de reduzir a taxa Selic em meio ponto desmascarou pela primeira vez um dos mais deletérios e antigos personagens da vida econômica brasileira: a confraria dos "juristas", um grupo que inclui algumas consultorias econômicas, alguns economistas ligados a bancos, aliados a alguns comentaristas econômicos formadores de opinião na velha mídia, que nos últimos anos conseguiu se apropriar completamente da política monetária do BC.
Não se trata do mercado como um todo, mas de um grupo que jogou com informações privilegiadas, ganhando em cima dos demais segmentos do mercado.
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Vamos por partes.
O mercado futuro de qualquer ativo embute uma aposta e dois apostadores. Digamos que o preço futuro esteja em 100. O apostador que acha que o preço vai a 105 "compra" o contrato a 100; o que acha que o preço vai cair, "vende" o contrato a 100. Se o preço for a 105, o que "comprou" a 100 ganha a diferença de 5; o que vendeu a 100, perde a diferença. Portanto, há sempre um lado que ganha e outro que perde.
O ponto central desse jogo, a ser garantido pelas autoridades reguladoras (BC), é a isonomia das informações. Ou seja, todos os agentes têm que ter acesso às mesmas informações. A desobediência a essa regra caracteriza o "insider information", a informação privilegiada, tipificada como crime financeiro, obrigando à interferência do Ministério Público e da Polícia Federal.
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Nos últimos dias houve uma grita infernal da confraria dos juristas, sustentando que o BC tinha perdido a credibilidade, que não conseguiria mais articular as expectativas do mercado.
Como assim? Antes da reunião do Copom houve queda nas taxas futuras de juros, significando que o mercado, por maioria, havia assimilado os sinais do BC e apostado na queda de juros. Quem não apostou foi um segmento específico que poderia ter ganhado milhões caso o BC tivesse mantido a taxa Selic. E ganhado milhões em cima dos que achavam que a taxa ia cair.
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Por que essa minoria barulhenta achava que os juros permaneceriam imóveis, se a maioria do mercado, analisando os sinais do BC, apostava na queda? Porque essa minoria julgava ter informações que a maioria do mercado não tinha. Na verdade, sempre trabalhou com informações privilegiadas do BC.
No período de Henrique Meirelles, denunciei algumas vezes reuniões de diretores do BC com economistas de mercado. Não eram reuniões abertas a todo o mercado. Participavam dela o mesmo conjunto de economistas que têm maior vocalização na velha mídia, as fontes preferenciais, justamente aqueles que estão berrando contra a decisão do BC.
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Com a decisão do Copom desta segunda-feira, desnudou-se o jogo. Há o mercado em si e, nele, a confraria dos "juristas". E os ganhos desse pessoal se dava em cima dos demais agentes do mercado, baseados em informações privilegiadas que recebiam do BC. 
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Portanto, a partir de agora não se fale mais do "mercado" genericamente, nem de "porta-vozes". Todo esse coro de lamentações ouvido nos últimos dias ajuda a mapear os elos dessa confraria de "juristas".
Seria bom que autoridades em geral começassem a olhar com mais presteza esse jogo. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Paulo Henrique Amorim

Na primeira página, o Valor anuncia a hecatombe universal.

Tombini cortou 0,5 ponto percentual da Selic porque há um “inquestionável” (sim, agora se usa adjetivo em “reportagem” de Economia …) desaquecimento da economia doméstica.

Além da “forte (sic) deterioração da situação externa”. 

Na primeira página da Folha (**) lê-se que o Banco Central agiu “sob pressão” (sic).

Qual ?

A irrelevância do PiG (***) ?

Contam amigos navegantes que, nesta quarta-feira, à noitinha, na rádio que troca a notícia, a CBN, a Urubóloga e um âncora gastaram 96 minutos da santa paciência do ouvinte com uma análise profunda sobre o que o Tombini ia fazer.

Erraram tudo.

Por que não esperaram a decisão que vinha a seguir ?

Não !

Eles sabem mais …

Na Folha (**), ainda, na segunda página, se sabe que não há explicação possível para o gesto irresponsável do Tombini: ele cedeu à pressão (vai ver que essa é a “pressão” …) política (só pode ser da Presidenta).

Quando o Henrique Meirelles, que foi presidente mundial do BankBoston e, ocasionalmente do Banco Central, aumentou os juros, no auge da crise do banco Lehmann, em 2008, ninguém disse que ele agiu “sob pressão” dos pares – os banqueiros.

Clique aqui para ler “A Presidenta avisou: corta que os juros caem”, onde há referência a uma “traição” do Meirelles descrita pelo Delfim.

O que Tombini deixou claro, primeiro, é que não fez nem pretende fazer carreira em banco privado.

Segundo, que, de fato, o esforço que o Governo Dilma faz para cortar gastos vai dar certo.

E, terceiro, que “o jornalismo de Economia no Brasil não é uma coisa nem outra”.

A frase é do Delfim, mas ele nega peremptoriamente.


Paulo Henrique Amorim